Se você utilizava a internet na década de 90, com certeza você já passou pelo Geocities. Se era um pouquinho mais heavy user, talvez até tenha tido uma página por lá. O Yahoo! Geocities anunciou ontem sua data de fechamento do serviço, dia 26 de outubro. Os usuários foram comunicados por email para migrar seus sites e fazer seu backup.
Mas a questão que fica é: Como pode um serviço comprado por 3,65 bilhões de dólares pelo Y! simplesmente fechar as portas?
Um pouco de história
O Geocities foi fundado em 1995, oferecendo gratuitamente a criação de páginas na web por usuários comuns. As páginas ficavam em vizinhanças, as “cidades”. Uma página sobre artistas ou filmes, por exemplo, ficava na vizinhança de “Hollywood”. Você – o autor e dono da página – escolhia o lugar onde queria morar, como se fosse uma rua. Foi certamente a primeira tentativa de criar comunidades dentro da Web.
O site tinha uma proposição de valor clara e crescia rapidamente. O conceito de que “qualquer um pode ter sua página na web” era muito forte para a época, e a idéia foi um sucesso. Todos os dias surgiam páginas como esta. Em 1997 o Geocities já era o quinto destino mais popular em toda a web e já tinha mais de 1 milhão de páginas de habitantes em suas vizinhanças, com um modelo de negócios baseado em conteúdo exclusivo pago e publicidade. Nesta época ninguém chamava isso de freemium ainda!
O Geocities abriu seu capital em abril de 1998 e no ano seguinte já era o terceiro destino mais popular da internet, somente atrás de AOL e Yahoo!. Neste momento o Yahoo! percebeu a ameaça e optou pela compra do serviço pelos exorbitantes 3,65 bilhões de dólares, perto do pico da bolha das pontocom.
Crônica da morte anunciada
Com a aquisição do então ultra popular Geocities (agora Yahoo! Geocities) começaram os tropeços do Yahoo!. Usando um termo da época, o Yahoo! queria se transformar de um portal em uma grande página de entrada, ou seja, no principal ponto de acesso da Internet. Através da sua página, que seria aberta antes de qualquer outra por todos os internautas, a empresa poderia controlar os destinos – quem você quer ver, para onde você pode ir. Nesse mundo, todo conteúdo pertenceria ao portal. O espírito anárquico das comunidades do Geocities não combinava com a Internet perfeitamente ordenada dos portais e diretórios, e por isso precisava ser contido.
Seguindo esta estratégia, uma das primeiras medidas do novo proprietário foi alterar os termos de uso do serviço, afirmando que todo o conteúdo, imagens e arquivos hospedados ali eram de propriedade do Yahoo!. As vizinhanças (que hoje chamaríamos de “comunidades”) iniciaram ondas de protesto e surgiram milhares de páginas criticando o Yahoo! e sua nova política de tirania sobre os dados dos usuários. Talvez seja o primeiro caso registrado de protesto em nome do data portability, muito antes do movimento surgir e se tornar popular. A empresa voltou atrás, mas o relacionamento com os usuários já estava se tornando complicado. Algum tempo depois houve alguns processos de moderadores voluntários de vizinhanças contra o Geocities pois o Yahoo! havia dissolvido algumas delas afim de reestruturar o serviço. Paralelamente, a Lycos acabava de adquirir o Angelfire, um clone do Geocities que vinha ganhando mercado com as falhas do concorrente.
O Fim
2001… A bolha tinha estourado e todo o dinheiro que estava disponível para os financiamentos das pontocom acabou. Os lucros do Geocities eram baixos mas os custos era altos. Na contramão do que deveria ser feito, o Yahoo! limitou a taxa de transferência de cada usuário ao invés de cortar custos internos. Com os custos de hospedagem cada vez menores, os habitantes das Geocities começam a migrar. Algum tempo depois aparece o Blogger. Blogs viram uma febre e a popularidade do Geocities despenca.
O Adeus
O Yahoo! falhou em reinventar o Geocities, investiu seus recursos de maneira errada e fechou seus ouvidos para a comunidade. Apesar de todo um cenário não favorável no cenário pós bolha, a empresa poderia ter ousado, investido em se reposicionar, e aproveitar o espaço que ela já tinha. Deixou que a concorrência copiasse e melhorasse o modelo, sem se reinventar ou estabelecer uma liderança criativa. O Y! se preocupou demais com a propriedade do conteúdo, e se esqueceu da importância de estruturar uma comunidade para seu negócio, deixando que o serviço agonizasse lentamente. Os portais jamais decolaram como esperado; esta parte do plano foi lenta e seguramente demolida pelo Google, que demonstrou o poder da busca e se tornou a empresa a ser batida. Ao se preocupar com o conteúdo, o Yahoo se esqueceu do mais importante – sua comunidade de usuários. Resta agora ao Y! lamentar o prejuízo de 3,65 bi e a nós apenas a saudade.
Adeus Geocities, descanse em paz! (e quem mais sentir saudade, deixe um comentário…)
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