Recentemente, o Mint – serviço online de gerenciamento financeiro pessoal largamente usado nos EUA – foi vendido para a Intuit. O comprador é empresa que publica o Quicken, que por sua vez é o software-à-moda-antiga mais usado por lá para a mesma finalidade. Valor da venda: US$ 170 milhões de dólares. E tudo isso em três anos de existência. Em uma palestra recente, o CEO do Mint, Aaron Patzer, contou um pouco da história do Mint. A apresentação é interessante para entender o quão profissional é o mercado americano de startups e ensina algumas lições valiosas para os empreendedores de qualquer parte do mundo.
Primeira Lição: É Tudo Dinheiro
Para quem gosta de tecnologia, esse talvez seja o maior choque. Dinheiro não é só um pré-requisito, e nem mesmo o objetivo final. Tudo em um plano de negócio gira em torno de dinheiro. Você tem que ser capaz de converter em números tudo que diz respeito ao plano. Quanto custa cada item, cada pessoa, cada mês de operação. Na outra ponta, quanto vale o seu negócio, a cada momento. Até mesmo o cliente se converte no final das contas em um número, que são suas vendas.
É fundamental entender que a negociação com um investidor ou executivo profissional irá girar em torno disso: dinheiro. Não interessa o quão sofisticada é a sua tecnologia. O que interessa é se você tem um negócio viável na mão, e a única forma de analisar friamente um negócio é através do dinheiro.
Finalmente, é essencial manter ao longo de todo o processo uma visão clara do fluxo de caixa. É assim que se decide quanto se pode gastar, quando investir, e principalmente – quando correr atrás de dinheiro novo.
Segunda Lição: Apresente um Produto
Agora que você já entendeu que em primeiro lugar e antes de tudo vem o dinheiro, não se esqueça de que você precisa ter um produto para apresentar. No caso do Mint, o produto surgiu de uma necessidade percebida pelo fundador da empresa. Partindo dessa idéia, o foco da primeira fase foi implementar e entregar este produto. Ajudou muito o fato de o fundador ter conhecimento sólido tanto da parte técnica, como da parte contábil. Mas o Mint investiu em uma equipe técnica significativa, para ter um bom produto na mão. E esse é o ponto: uma vez que você saiba o que quer fazer, é importante focar na execução, implementar e entregar o produto. E para isso é preciso ter competência técnica. Depois disso, é só seguir o plano.
Terceira Lição: Tenha um Plano
Mesmo para uma empresa que cresce extremamente rápido, como o Mint cresceu, é importante ter um plano claro em mente. O plano permite cruzar as duas dimensões fundamentais do negócio: a tecnologia e o dinheiro. A idéia é manter um olho no dinheiro o tempo todo, enquanto a tecnologia é construída.
O plano básico do Mint se dividiu em três fases: “garagem”, “capital semente” e “financiado”. Em cada uma das fases, o foco é um pouco diferente. A primeira fase se concentra em ter o produto (nossa segunda lição). Na segunda fase, o foco é implantar o modelo de negócio básico. E na terceira fase, a empresa se profissionaliza e se consolida. A disciplina com a qual o Mint executou essas fases é um exemplo claro de como um plano bem feito permite conduzir uma empresa no caminho do seu crescimento.
Lição Final: Não Existem Inimigos
Outra lição valiosa (que por sinal não consta da apresentação) vem da história do relacionamento entre o Mint e a Intuit. As empresas não tinham uma relação muito amistosa. O Mint surgiu em reação à complexidade do Quicken e vinha tomando mercado rapidamente, especialmente entre os usuários casuais. No começo do ano, a Intuit chegou a questionar legalmente a capacidade de crescimento do seu concorrente. Agora, com a compra, as empresas mais do que fazem as pazes. O Mint retorna o investimento dos capitalistas (estimado em US$ 31 milhões) e o Quicken ganha sangue novo para crescer.
É claro que comparar o mercado americano de startups com o mercado brasileiro é algo impensável, por absoluta falta de parâmetro. Porém, acredito que as lições valem em qualquer lugar do mundo – até mesmo no Brasil. É questão de saber aplicá-las.
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